O que uma casa segura representa no aprendizado escolar de uma criança?

Com SMCS

Famílias do Residencial Divino contam como a casa nova mudou a rotina de alunos da Escola Municipal Anísio Teixeira, instituição que registrou o maior crescimento da cidade no Ideb

Quando duas políticas públicas chegam juntas à mesma família, uma potencializa a atuação da outra. Foi o que aconteceu no Atuba, onde ficam o Residencial Divino e a Escola Municipal Anísio Teixeira. O conjunto habitacional transformou a qualidade de vida de famílias que enfrentavam precariedade e o trabalho pedagógico da escola resultou no maior crescimento da cidade na nota do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para os anos iniciais.

As primeiras 72 casas do Residencial Divino foram entregues pelo prefeito Eduardo Pimentel em maio de 2025. Entre os contemplados, 22 alunos da Anísio Teixeira, que justamente em 2025 atingiu a nota 7,36 na avaliação do Ideb – um aumento de 1,82 ponto em relação ao 5,54 obtido em 2023, o maior crescimento registrado entre as escolas de Curitiba.

O resultado é fruto do planejamento pedagógico, do trabalho dos profissionais da escola, da dedicação dos estudantes e da participação das famílias. As novas moradias não explicam sozinhas o aumento na nota, entretanto, as casas seguras retiram obstáculos que interferiam na frequência escolar e na rotina de aprendizagem das crianças.

“Eu nem mandava para a escola”

Da porta das novas casas até o portão da escola são aproximadamente 900 metros. Uma distância curta, mas as condições nas quais os estudantes percorrem esse caminho mudaram depois do reassentamento das famílias que viviam em situação vulnerável às margens do Rio Atuba.

“Em dias de chuva a água entrava nas casas, molhava roupas, tênis, alimentos e materiais escolares. Tinha vezes que o caminho ficava impraticável e eu nem mandava ele para a escola”, conta o psicólogo e líder comunitário Gean de Oliveira, que é pai do João, estudante do 5º ano da Escola Municipal Anísio Teixeira.

Agora, o trajeto começa em uma casa seca, com fornecimento regular de energia, espaço para descansar e um local adequado para guardar os materiais e fazer as tarefas. Segundo o pai, além da frequência, aumentou o ânimo de João para estudar.

“A questão do pertencimento, de a gente ter um local e um endereço, conta muito. É deixar o estigma de favelado e ter uma moradia digna”, afirma Gean.

Cantinho deles

Na casa da diarista Alessandra Moreira Plaza, mãe de Adrian, do 5º ano, e André, do 3º ano, a mudança também reorganizou a rotina escolar.

Na moradia anterior, toda a família dormia em um único cômodo. Havia uma cama de casal e um beliche. Sem um espaço próprio para estudar, os meninos normalmente faziam as tarefas na mesa da cozinha e, algumas vezes, dentro do quarto.

“Agora eles têm um cantinho deles, com computador e uma cadeira mais confortável. Eu notei uma grande diferença neles depois que a gente mudou para cá. Eles estão mais alegres e mais dispostos”, explica Alessandra.

A preparação para ir à escola também mudou. Os meninos deixam as roupas separadas na noite anterior e, segundo a mãe, acordam com mais disposição para se arrumar, tomar café e sair para as aulas.

A segurança da construção permite ainda que Alessandra invista no imóvel e compre móveis sem receio de perder tudo em um novo alagamento.

“Na casa antiga não tinha como comprar nada por causa de alagamento. Agora, todo o meu trabalho e o meu investimento são para uma vida melhor para eles. É tudo por eles, porque o futuro vai ser deles”, afirma.

Ela também compara as instalações elétricas. Na antiga moradia, um curto-circuito poderia atingir o forro e provocar um incêndio. Na casa nova, quando houve um problema no micro-ondas, o disjuntor desligou automaticamente e protegeu a família.

“Essa nova moradia foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na nossa vida”, celebra Alessandra.

Educação que acolhe

As mudanças na vida dos estudantes se somam ao trabalho desenvolvido dentro da Escola Municipal Anísio Teixeira. A unidade adotou ações coletivas, planejamento com professores e pedagogos, atividades adaptadas às necessidades dos alunos e grupos de estudo no contraturno para recuperar conteúdos.

“A escola trabalha com ações coletivas, com o grupo de professores e pedagogos, em busca de estratégias para que a gente vá alinhando o trabalho pedagógico”, explica a vice-diretora Cristiani Regina Schultz.

Antes do reassentamento, a situação habitacional das famílias já aparecia no cotidiano da escola. A dificuldade começava no momento da matrícula, quando moradores da ocupação precisavam utilizar o comprovante de endereço de parentes ou conhecidos.

Ao longo do ano letivo, surgiam pedidos de apoio com materiais, uniformes e alimentação. Faltas registradas em dias frios ou chuvosos também levavam a equipe a buscar as causas da ausência.

“Em dias muito chuvosos e frios, era comum que as crianças não viessem para a escola. Depois, investigando os motivos, a gente descobria que tinha chovido dentro de casa, que houve alagamento ou que o trajeto não era seguro”, relata Cristiani.

A escola passou a realizar ações de aproximação com a comunidade. Professores e funcionários visitaram a antiga Vila Divino para conhecer a realidade dos estudantes e compreender situações como a falta de tarefas realizadas em casa.

A orientação era substituir o julgamento pelo acolhimento e considerar as condições familiares antes de avaliar o comportamento das crianças.

Para Cristiani, um dos reflexos mais importantes da mudança está na forma como os estudantes se reconhecem e se relacionam.

“O principal fator é o pertencimento. Eles não têm mais vergonha de dizer onde moram, onde brincam e passam a se relacionar com os outros colegas de igual para igual”, afirma a vice-diretora.

Projeto completo

Residencial Divino reúne 108 novas moradias construídas pela Prefeitura de Curitiba, por meio da Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab). O investimento foi de R$ 23,9 milhões, 100%  proveniente do orçamento municipal.

Além das casas, a intervenção implantou pavimentação, calçadas, saneamento, drenagem, iluminação pública e paisagismo. Todas as unidades contam com painéis fotovoltaicos para geração de energia solar.

As famílias deixaram uma área sujeita a alagamentos e marcada pela presença de moradias improvisadas, ligações irregulares de energia e ausência de infraestrutura. Parte da ocupação estava sob linhas de alta tensão e nas margens do Rio Atuba.

Com a retirada das construções, a área próxima ao rio passou por recuperação ambiental, com o plantio de 900 árvores.

Uma casa não ensina Português nem Matemática, e uma escola não consegue impedir que a chuva entre em uma moradia precária. Todavia, quando as políticas de habitação e educação chegam à mesma família, os benefícios se multiplicam.

“Uma casa segura transforma a vida da família em todos os aspectos. Por isso, seguimos trabalhando firme, para proporcionar mais dignidade e qualidade de vida para outras milhares de famílias curitibanas”, destaca o presidente da Cohab, André Baú.